SÃO PAULO — O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, afirmou nesta sexta-feira que a política fiscal continua neutra ou contracionista, mesmo após a redução das metas de superávit primário. Em entrevista à agência Reuters, ele reconheceu, porém, que, no curto prazo, as mudanças podem pressionar a inflação e obrigar uma resposta de política monetária — com uma possível alta dos juros.Você teve uma redução de meta (de superávit primário) com redução de gasto, não houve redução da meta para ampliar gastos.... Acho que a política fiscal continua neutra ou contracionista. Por outro lado, tem o impacto indireto, que não é fruto da política fiscal, é a reação do mercado à revisão das metas fiscais que, nesse curto prazo, tem sido uma depreciação cambial que pode indiretamente bater na inflação e requerer resposta da política monetária — afirmou Barbosa.O ministro, porém, disse acreditar que esse movimento pode ser revertido nas próximas semanas. Nesta sexta-feira, o dólar atingiu R$ 3,34 reais, a cotação máxima em mais de 12 anos, , ainda refletindo preocupações com o risco de o país vir a perder o grau de investimento após a mudança das metas fiscais. Na véspera, a moeda americana já tinha subido mais de 2%.Segundo Barbosa, o esclarecimento da estratégia fiscal de médio e longo prazos tende a atenuar “essa resposta inicial na taxa de câmbio e na taxa de juros, de modo a não criar nenhum problema para a política monetária”.CENÁRIO REALISTA, ALEGA MINISTROO governo anunciou na quarta-feira uma redução drástica das metas de superávit primário deste e dos próximos dois anos, em meio a um cenário de contração econômica. A meta em 2015 foi cortada de 1,1% para 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB). Para 2016 e 2017, os objetivos foram reduzidos a 0,7% e 1,3% do PIB, respectivamente, contra 2% anteriormente nos dois anos.Além da disparada do dólar, os mercados de juros futuros reagiram mal às novas metas fiscais, com apostas de que a taxa básica de juros — atualmente a 13,75% ao ano e ainda em processo de elevação para controlar a inflação — subirá mais neste ciclo de aperto e demorará mais para começar a ser reduzida.Barbosa disse que já era esperada uma reação negativa do mercado às novas metas de primário, reduzidas mais fortemente devido à frustração com as receitas, sobretudo via massa salarial, que pesa na Previdência e nas despesas com seguro-desemprego.O ministro voltou a defender que os novos objetivos fiscais são mais realistas e suficientes para estabilizar a dívida pública. Ele argumentou que o governo usa diversas variáveis para chegar às projeções para o comportamento da dívida, como proporção do PIB, crescimento, inflação, câmbio, juros e composição do endividamento — bem como o impacto das operações de swaps cambiais no pagamento de juros líquidos.— É importante trabalhar com cenário bem realista. É importante mostrar que, mesmo com esse cenário realista, a situação fiscal está controlada — disse o ministro.No cenário do governo, a relação dívida bruta/PIB vai subir até 2016 e chegar ao patamar de 66%, frente a pouco mais de 62% agora. A partir de 2017, ela se estabilizaria, cenário já rechaçado por boa parte dos economistas, cujas projeções indicam que a dívida pode chegar a 70% do PIB no período.— Não é uma redução da meta (fiscal) para se gastar mais. É uma redução gerada principalmente pela desaceleração econômica e revisão das receitas adicionais que esperávamos neste ano — insistiu o ministro, acrescentando que não há, no momento, estudos para elevar impostos e buscar mais receitas.OBSTÁCULOS NO CONGRESSOMesmo diante da intensa crise política entre o Executivo e o Legislativo, o ministro afirmou que o governo continuará enviando medidas ao Congresso Nacional para dar continuidade ao ajuste fiscal.O Estado brasileiro e a sociedade brasileira têm todos os instrumentos necessários para resolver os problemas que temos. O problema é construir consenso gradual sobre essa estratégia de solução. Numa democracia, essa construção leva algum tempo, mas ela acontece — declarou Barbosa.Na quinta-feira, ele esteve reunido com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para pedir apoio às propostas de redução da meta fiscal, que precisam do aval do Congresso. Ele disse que se encontrará com o presidente do Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que recentemente anunciou seu rompimento pessoal com o governo.Para o ministro, a economia brasileira vai começar a se recuperar no quarto trimestre deste ano, de forma gradual. A projeção do governo é de que o PIB encolha 1,49% em 2015.
Barbosa admite que revisão de meta pode levar à alta maior de juros no curto prazo
Redação, O Globo
24/07/2015 às 03:00 •